Serendipity

The laws of chance, strange as it seems,
Take us exactly where we most likely need to be
[David Byrne]

terça-feira, 30 de novembro de 2004

Onde é que tu estavas no 13 de Julho*?

Há que dizê-lo com toda a frontalidade: estava no campo de férias da ACM em Foz de Arouce. Com a desculpa de não ficar longe da minha irmã tinha ido parar ao bungalow dos mais velhos, o único sem monitor. Foi uma festa. E levei o meu primeiro beijo (que eu não dei nada, bem entendido). Ele era muito mais velho e passava dias inteiros a ouvir o «Pride (in the name of love)» dos U2. Eu passei dias inteiros a fugir dele. Só uns meses depois é que comecei a perceber o interesse da coisa e ainda suspirei por ele, mas já era tarde (e ele vivia em Aveiro).

[*de 1985, dia dos concertos Live Aid; um no estádio de Wembley em Londres e outro no estádio JFK em Filadélfia.]

O (des)governo de Portugal

Senhor Presidente da República,

Faça-nos um grande favor: demita o Governo e marque eleições.

Viva o Natal !

Aguardo o feriado com expectativa.

É que no dia 1 de Dezembro de cada ano, faz-se a árvore de Natal em casa do meu pai.

A operação demora o dia inteiro e é encarada por todos nós com um profissionalismo divertido.

E claro que ao fim da tarde, a conclusão é sempre a mesma: a árvore está muito mais bonita que a do ano anterior.

segunda-feira, 29 de novembro de 2004

Utilidades

Consultar aqui a data da primeira lua nova de cada mês. Ali encontra ainda um calendário auxiliar que lhe permitirá determinar o primeiro dia útil subsequente ao dito evento. Para que não haja confusões: está marcado para segunda-feira, 13 de Dezembro.

[Pensar que vou empurrar o Jude Law para baixo por causa disto, raios.]

Super

...califrajalisticexpialidocious.

Supernatural good looks, supersize talent – and so nice, he just might kiss you if you have the nerve to ask.

Carinho

Este fim de semana cheguei a pensar que a palavra podia ser polissémica.

Fui consultar o dicionário.

A definição é a seguinte: "Demonstração de amor ou benevolência. Carícia, mimo, afago. Dedicação, cuidado extremo".

Fiquei triste mas respirei de alívio. Não estava enganada, a expressão só tem mesmo um sentido.

domingo, 28 de novembro de 2004

Azarucho

She said, “I love an Irish lad and he was my only joy,
And ever since I saw his face, I've loved that soldier boy.”
“Perhaps your soldier lad is lost,
Sailing over the sea of Maine.
Or perhaps he is gone with some other one,
You may never see him again.”
“Well if my Irish lad is lost, he's the one I do adore,
And seven years I will wait for him,
By the banks of the Moorlough shore.”*

Sete é simbólico. Quem diz sete anos quer dizer muito tempo. Eu conseguiria ficar quieta muito tempo, à espera, sem fazer barulho. Uma campeã da apneia. Quando penso nessa hipótese ainda me entusiasmo com a ideia. Sete anos sem respirar, sem viver - fazendo-o de forma mecânica -, e tudo por «amor». Que feito heróico, que vítima. E conseguiria. Mas já me convenceram que seria um disparate.

Olha, azarucho, paciência. Esquece lá isso.

[*«The Moorlough Shore», Sinead O’Connor]

sábado, 27 de novembro de 2004

Hard Rock Café

Fomos experimentar já com algum atraso. Ali não se marcam mesas excepto para grandes grupos (quatro não qualifica). À chegada fomos informadas que teríamos de esperar cerca de uma hora para ter mesa mas, graças a uma merecida prioridade no atendimento, ao fim de cinco minutos estávamos sentadas.

Pelas colunas soava, bastante alto (íamos preparadas para isso), o Meatloaf num dueto ao vivo com uma daquelas cantoras de voz fabulosa que ele descobre (“I Would do Anything for Love”). Pessoalmente diria que o momento alto da noite se deu quando passou o «I Want Your Sex» e nos cinco ou seis ecrãs se podia ver o teledisco com o George Michael e aquele cabelo, o brinco do crucifixo...uma pirosada adolescente que nos encheu as medidas.

A frequência não ajudava a melhorar o ambiente: predominantemente masculina e invasora num género desagradável. Tal como prevíamos, não foi fácil conversar e o facto de termos que gritar durante toda a refeição também terá contribuído para as indisposições que se seguiram. Comemos hamburgers, batidos, gelados; the works. Depois fomos para minha casa beber chazinho para ver ser passava.

Tínhamos que lá ir mas duvido que tenhamos de lá voltar.

sexta-feira, 26 de novembro de 2004

Coitadinha da minha menina (II)

Parece que no início do próximo ano o "novo pólo cultural e de actividades lúdicas" de Lisboa vai ser inaugurado. Vamos ter muitos metros quadrados de restaurantes, bares, lojas, cinemas, elevadores, passadeiras e escadas rolantes. E Touros também. Que lindo!

Quem diria

Estava distraída com a conversa ou não o teria feito à frente dele. Agora quando estou na cozinha e me sento na bancada [de granito], sozinha, penso: “sexy?”.

Por curiosidade

Alguém conhece alguém que conheça alguém que alguma vez tenha comprado uma dessas camas-sofás-poltronas insufláveis que se vendem pela tv? Aquilo tem mercado?

Encontro desmarcado

Falar ao telefone não é o meu forte.

quarta-feira, 24 de novembro de 2004

Encontro marcado

Revi há dias o meu único amigo de infância. Já não falava com ele há anos, não porque os acasos da vida nos tivessem separado mas porque ele tomou um dia a decisão de se desligar de tudo, de todos e de mim também.

Sempre achei que nos voltaríamos a cruzar. A minha convicção era tão forte que até já tinha ensaiado mentalmente o meu discurso. Queria estar preparada quando surgisse a ocasião para lhe atirar à cara a minha tristeza e incompreensão.

Contudo, quando gritei o nome dele no meio da rua e o seu olhar azul e gelado me encontrou, só senti saudade.

Ele corou, iniciou a custo um diálogo de circunstância e depois calou-se. Sorriu. Devolvi-lhe o sorriso mas disse-lhe: "Tens muita sorte. Quando te vi podia ter dado meia volta". Ele respondeu "Eu sei".

Não trocámos mais uma palavra e despedimo-nos sem promessas.

Ele faz hoje 32 anos. Parabéns, amigo.

Weather forecast

Fui consultar o Tempo.
A tempestade confirma-se.

terça-feira, 23 de novembro de 2004

Esgotado (2)

Sobre o porquê de o livro «O Pai» estar esgotado, o que não acontecia com o livro «A Mãe» da mesma colecção, a Huma disse que, se calhar, a edição de «O Pai» tinha menos exemplares. A editora sabia que «O Pai» não teria muita saída, fez uma edição reduzida e nem pensa em reeditar.

Eu disse que não. Pelo contrário, os exemplares de «O Pai» devem ser muito mais procurados, devem ter voado logo que chegaram à banca. Existem várias circunstâncias sociais, todas elas geradoras do efeito ‘ausência’ (não necessariamente física), que justificam que a figura paterna tenha de ser apresentada e explicada às crianças através de um livro.

[E eu, em vez de estar para aqui a queixar-me, devia era escrever isto no blog do meu pai. Mariquinhas.]

Esgotado

Íamos a meio da nossa incursão de cerca de duas horas pelos pavilhões de livros infantis, quando a Huma começa a folhear o livro «A Mãe». O responsável do stand apressou-se a esclarecer: “Também há «O Pai» mas de momento está esgotado”.

Eu já desconfiava. Já há tempos que não via um exemplar em lado nenhum. O pai está esgotado. Será coisa para muito tempo? Um anito? I'm gonna dance with my girls, it's all right, until I see my sexy daddy-daddy-daddy*.

(*de «Sexy Daddy», Destiny's Child)

Outra questão premente

Também não desgostei da que me calhou na rifa.

Uma questão premente



Qual prostituta cinematográfica você é?

Vi isto aqui e depois até gostei do resultado e então...

segunda-feira, 22 de novembro de 2004

Delicodoce

Sábado fui ver «O Novo Diário de Bridget Jones» e só tenho a dizer o seguinte: I love you... I always have... and I always will. Agora é uma questão de ir comprar o cd da banda sonora e o meu happy ending está assegurado.

[Não pensei que alguma vez na vida viesse a ter a sorte de reencontrar aquela música dramática chamada «Stop» que, pelos vistos, é cantada por uma tal de Jamelia]

I want to shoot the whole day down

domingo, 21 de novembro de 2004

Percebo bem

Aquele senhor para quem a entrada em vigor do novo regime do arrendamento conduzirá a uma catacombe. Assim de repente, em directo para a televisão, sem conseguir decidir-se sobre o impacto de "hecatombe" por comparação com "cataclismo", tomou a melhor opção.

Domingo

Estamos um com o outro. Tu, de olhos fechados a dormir, eu de olhos abertos a escrever. A situação é um bocadinho estranha mas o facto é que me sinto bem neste silêncio, à espera que acordes.

sábado, 20 de novembro de 2004

Vida de mãe - episódio 7 - parte 2

Ainda não tínhamos chegado ao carro e o meu filho, visivelmente confundido com o que se tinha passado na consulta, pediu para ver os meus dentes.

Pouco depois, sentado no banco de trás, quis observar a boca dele ao espelho.

Durante a viagem, perguntou-me várias vezes se podia pôr a chucha na boca. Eu respondia-lhe que não, sem saber ainda como contrariar a ordem do pediatra.

O miúdo calou-se mas ao chegarmos a casa resolveu interromper o silêncio para me interpelar, seguro de si: "Mãe, a minha chucha está velha. Tens de comprar uma nova."

Os dois anos e quatro meses do meu filho foram mais rápidos que os meus quase trinta e dois a encontrar uma solução para o problema: se o médico lhe tinha dito que já não podia usar a chucha, era certamente porque ela devia estar a precisar ser substituída!

Vida de mãe - episódio 7 - parte 1

Ontem, levei o meu rebento ao pediatra. O médico quando o viu agarrado à chucha pregou-me um valente sermão.

Visivelmente entusiasmado com a desanda que me tinha dado, resolveu convencer o meu filho a largar o seu querido vício, abrindo para o efeito, um livro gigante cheio de imagens de patologias infantis.

Folheou-o com demasiada calma e parou numa página dedicada às anomalias estomatológicas. Podiam-se ver três ou quatro fotografias de bocas completamente anormais.

Ele escolheu uma delas e dirigiu-se ao miúdo: "Estás a ver esta boca? Não queres que a tua fique igual, pois não?" Não satisfeito, continuou a incomodá-lo, terminando o seu discurso com a seguinte observação: "Não gostas que te mordam, pois não? Então, porque é que mordes a chucha?"

A minha criança estava calada, muito séria a olhar para aquela boca horrível. Eu estava muda, furiosa, a achar que aquela era a forma mais desadequada, abusiva e descabida de lidar com a questão.

Para rematar, o médico aconselhou-me a arranjar uma caixa para colocar o objecto mal-amado junto à cama do miúdo com o objectivo de treinar o seu auto-domínio!

Quando saí do consultório, vinha desiludida comigo, sem perceber porque é que não tinha travado o discurso do pediatra, porque é que tinha deixado o meu filho ver e ouvir aqueles disparates sem ter reagido, sem ter batido com a porta na hora certa.

sexta-feira, 19 de novembro de 2004

Apesar de ser sexta-feira

Hoje não há divulgação de nada que possa vir a ser publicado este domingo na «Notícias Magazine». É uma nova estratégia.

Com pêlos ou sem pêlos?

O fenómeno da depilação masculina parece ser hoje uma realidade incontornável.

Há dias, um amigo que pratica a modalidade afirmou-me peremptoriamente: "elas gostam mais."

O comentário dele não só me surpreendeu como não me conseguiu convencer. Resolvi, então, fazer um pequeno inquérito sobre o tema a vários elementos do sexo feminino que conheço.

As opiniões dividem-se: há mulheres que acham a ideia detestável. Querem o (seu) homem com a pilosidade de origem, vendo nos pêlos uma prova de indiscutível e agradável virilidade, chegando ao ponto de afirmar que um homem que se depila só pode ser gay.

Há outras que primeiro estranham o conceito mas depois acabam por concluir que a inexistência de pêlos em certas zonas do corpo masculino pode ser vantajosa.

Todas repudiam uma depilação que inclua peito, pernas e braços (!).

É preciso, no entanto, fazer notar que quase nenhuma delas se pronunciou sobre o assunto com conhecimento de causa.

A rapariga não relaciona

Não sei se já reparaste que te calhou um quadro intitulado “O Sonho”, no qual se pretende retratar "um espaço de pureza incontaminada". Aguardei reacções e nada. Começo a achar que não leste.

O que está para a frente

What though the radiance which was once so bright
Be now for ever taken from my sight,
Though nothing can bring back the hour
Of splendour in the grass, of glory in the flower,
We will grieve not, rather find
Strength in what remains behind
William Wordsworth

[Antes de sair a correr da sala de aula, diz a Deanie sobre este excerto: Well, I think it has some...Well, when we're young, we look at things very idealistically, I guess, and I think Wordsworth means that when we grow up, that we have to forget the ideals of youth and find strength...]

A ideia será aproveitar a memória das coisas muito boas (que não voltarão mais) como combustível a usar no presente. Não creio que resulte. Primeiro, parece-me que as alegrias produzem energia de combustão rápida e efémera, não reutilizável, enquanto que as dores vão-nos marinando lentamente. Depois, não é possível ir buscar memórias excepcionais e extrair-lhes cirurgicamente aquele pequeno senão de nada, nunca mais, voltar a ser tão bom como já foi. Uma coisa vem agarrada à outra, e quanto mais nos lembrarmos de como fomos felizes mais nos enterramos. Por fim, não vejo o interesse em sequer procurar forças para o presente se, à partida, estamos convencidos que nada nos trará a felicidade que antes vivemos.

Apesar destas considerações, sei que a minha força decorre e assenta no que está para trás, apenas ressalvando que o que está para trás não foi nenhum “esplendor na relva”. Mas não me parece um bom sistema, quer a força que se vai buscar ao passado resulte de ter sido bom de mais ou, pelo contrário, mau de mais.

Aquilo que, de forma mais segura e inesgotável, nos poderá mover, será encontrarmos forças em tudo o que ainda não vivemos.

quarta-feira, 17 de novembro de 2004

Conselho emprestado

Se sonharem coisas boas, não as contem...

Enganar a evolução

[tentando não me embrulhar toda apesar de ser provável não o conseguir, em inglês, «against all odds»:]

“Inepto” e “inapto” querem dizer quase a mesma coisa. No entanto, entendo a inaptidão como uma incapacidade conjuntural ou perante uma tarefa concreta, e a ineptidão como uma incapacidade estrutural, que atinge o sujeito independentemente daquilo a que se proponha; atinge-o até na inacção.

Enganar as leis naturais da evolução, onde se inclui a da eliminação dos mais fracos, é o sujeito conseguir sobreviver e merecer até alguma consideração apenas porque, apesar de inapto para qualquer actividade concreta alguma vez experimentada, nunca será possível considerá-lo inepto. Enquanto há vida, há esperança, e muita gente diz que "há ali potencial".

A verdade, verdadinha, verdadeira é que eu tinha que pôr aqui esta tira e o resto é conversa. Que eu conheça é a única tira do «Mutts» que, sem ser das a cores publicadas ao Domingo com um formato maior, tem elementos coloridos:

The Corrs

Ainda não recuperei completamente do facto de ter gasto 45 euros num concerto que eu qualifico, sem qualquer dificuldade, como o pior a que já assisti.

É verdade que a acústica do Pavilhão Atlântico trata, logo ao primeiro acorde, de reduzir para metade as expectativas dos espectadores.

E que para ajudar à festa, quem organizou o espectáculo teve a brilhante ideia de colocar cadeiras no chão do pavilhão e obrigar as pessoas a verem o concerto sentadas, tornando o ambiente frio a descambar várias vezes para o gélido (tipo conferência).

Finalmente, e no que diz respeito à performance, das três irmãs, só constavam duas e estas não deram conta do recado, nem com a ajuda dos tambores e do piano do irmão.

Em resumo, sou capaz de ter apreciado vagamente dois ou três momentos que se limitaram a poucos minutos de uma longa estopada de duas horas.

P.S.: As minhas desculpas, Sam, por te ter arrastado para a miséria que acabei de descrever.

Que tal vai essa pintura? (4)

Pois vai muito mal. Estas cores são impossíveis. Vocês sabem que me calhou o pior. Tem sido um trabalho de “grande esforço” apesar do pequeno tamanho.

This work, of great effort and size, initiates the series of pictures by Edgar Degas on life in fashion shops, this being the most brilliant and admirable of all. Degas occasionally accompanied the North American painter Mary Cassat to the Parisian fashion shops, discovering in la Rue Royale and la Rue de la Paix, in the interiors of the establishments, everyday scenes which had a powerful attraction for him and which he transferred to his pictures. Mary Cassat occasionally sat for him as a model, as in Chez la modiste. In the whole of this series, done in pastel, the painter showed the same attention to colour, light and subjective framing.

[copiado daqui]

terça-feira, 16 de novembro de 2004

Ficção e realidade

Mandei-lhe apenas esta tira para dizer que não tinha percebido. Respondeu-me que não tinha percebido. Resultado? v. último quadrado.

segunda-feira, 15 de novembro de 2004

Conversa imaginada

A forma mais suave de vos transmitir as notícias:
Eu - Amigas, estamos com um sério problema. Em menos de 72 horas fomos lincadas pela santíssima trindade da blogosfera.
meg - Certo. E qual é o problema?
Karma - O que é isso de “fomos lincadas”?
Huma - Eu disse-vos, eu sabia, estava-se mesmo a ver. “Santíssima trindade”? Alguém que eu conheça?

domingo, 14 de novembro de 2004

O peso da literatura

Jealous lovers are more respectable, less ridiculous, then jealous husbands. They are supported by the weight of literature. Betrayed lovers are tragic, never comic.*

[Nada a dizer sobre o conteúdo literal deste excerto. O marido ciumento é ridículo e cómico; o amante ciumento é respeitável e trágico. A razão está na forma como os respectivos papéis têm sido caracterizados pela literatura. Mas:]

Estudos indicam que já ninguém faz o mínimo esforço para fingir que é feliz. Pelo contrário. Uma pessoa sem eternas angústias e permanentes insónias não tem consistência, falta-lhe o peso da literatura. O que está a dar é andar deprimido, cansado, frustrado, e dizê-lo cantando a toda a gente. Há uma espécie de orgulho novo-rico no estado de atormentado, incompreendido, mal-amado. Diz-se agora que "fracassar é muito mais difícil"; fala-se em "coragem para desistir". É o que dá o peso da literatura (e do cinema). O peso da literatura dá a volta ao texto. Os tristes são “interessantes”; disputa-se o fatalismo, a solidão, a incompreensão. Eu gosto mais de não ter angústias nem insónias ou, pelo menos, de o negar cantando a toda a gente. Eu gosto de dizer que gosto do natal, por exemplo. E acho que até gosto mesmo do natal, apesar de não ser nisso sustentada pelo peso da literatura.

[*Graham Greene, «The End of the Affair» - isto do "peso da literatura" também me fez lembrar aquela conversa do Christian vs. Cyrano. entretanto, confesso-me vítima de uma estranha obsessão por parêntesis rectos.]

O idiota

Se não te deste a ninguém
magoaste alguém
A mim... passou-me ao lado.
[da «Carta», Toranja – a nossa música?]

sexta-feira, 12 de novembro de 2004

Pode ser que

Neste Domingo, na «Notícias Magazine», saia a fotografia de uma mão. Não sei. Vamos lá ver.

[A partir de hoje será também emocionante acompanhar a nova novela "O Lincador".]

Recaída

Raios! Este meu coração teima em continuar a bater a mil à hora, apesar de já ter caído.

Quando olhei para ele todo partido no chão, zanguei-me, disse-lhe das boas: "És muito estúpido, parece que não percebes". "Desiste!" gritei eu.

Fiquei convencida que ele tinha aprendido com a dor. Achei que, de ora em diante, iria portar-se bem, defender-se, fugir do impossível.

Está visto que não. Vou ter de me voltar a aborrecer com ele, fazer-lhe um desenho, se for preciso.

É que ele não aguenta mais quedas. Ele pensa que sim mas eu sei que não.

Eu não estou estragada

É só uma pequena avaria já em reparação.

Deanie is soaking and sweating in a bathtub full of steaming hot water - attempting to relax and purge herself of poisons and anxiety. She rocks her head left and right (with her eyes shut) as she sighs feebly and tells her mother that she feels better. But the tension visibly mounts when she is quizzed by her mother about Bud.

Mrs. Loomis: What's been the matter the past few days?
Deanie: I'm sorry I've troubled you. I don't want to worry you. I don't want to worry anyone.
Mrs. Loomis: Is it all on account of...because of Bud? Because he doesn't call for you anymore?
Deanie: I don't know. I don't know, Mom.
Mrs. Loomis: I have a mind to call that boy and tell him....
Deanie: (sitting up furiously and screaming) Don't you dare! Don't you dare, Mom! (she covers her face with both hands and lies back down into the tub - and then tries asserts herself, with her right hand covering her mouth.) Don't you dare! Don't you dare!...No, Mom! Momma, if you do something like that, I'll do something desperate! I will, I will, Mom! I will!
Mrs. Loomis: (standing over her) Deanie, how serious had you and Bud become? I mean, well, you know what I mean. Deanie - had he - had anything serious happened? Did he - did he spoil you?
Deanie: (raging and laughing hysterically and uncontrollably) Spoil??? Did he spoil me? (she turns and submerges her head under the steaming water. She flails around and then sits up again.) No. No, Mom! (hatefully) I'm not spoiled! I'm not spoiled, Mom! I'm just as fresh and I'm virginal like the day I was born, Mom!
Mrs. Loomis: Stop it! Stop it!
Deanie: I'm a lovely virginal creature who wouldn't think of being spoiled! (she stands up in the tub and steps out with her arms outstretched.) I've been a good little girl, Mom! I've been a good little, good little, good little girl! I've always done everything Daddy and Mommy tell me. I've obeyed every word. I hate you, I hate you, I HATE YOU!

quinta-feira, 11 de novembro de 2004

Que tal vai essa pintura? (3)

Um sonho.

To express his world of dreams and idyllic purity, Marc filled his pictures with animals, the symbols of what is basic and natural. In turn, the colouring filled not only a pictorial function but especially significant through its symbolization: yellow was for him femenine, blue masculine, red raw material. Here, in this work, which only the dream can make explicable, he offers us the Arcadian harmony between the human being and the animals that surround him, a demonstration of his idea about paradise lost, in a setting of uncontaminated purity.

[copiado daqui]

Mais comics

Gosto muito de histórias de fadas, de príncipes e princesas. As edições mais recentes que tenho dos contos de Andersen comprei-as há menos de dois anos e pouco antes tinha comprado mais um livro dos irmãos Grimm. Mas gosto muito menos de fábulas. Príncipes, fadas, varinhas de condão ainda vá; agora animais a falar é pouco credível. Tirando uma história, que era a melhor de todas, em que os animais com “problemas laborais” nas respectivas quintas fogem, pregam um susto enorme nuns bandidos e formam uma banda musical (parece que lhe chamam «Os Músicos de Bremen»).

[Na infantil e na pré-primária, ao final do dia, havia um momento de leitura de uma história. Éramos nós que escolhíamos a história que queríamos ouvir; havia uma votação. Eu queria ouvir sempre a mesma, sempre aquela dos animais que fugiam de casa. Devia ser mesmo muito importante porque eu fazia campanha para que aquela história ganhasse. A história foi lida quase dia sim dia não, até a professora dizer que não podia ser sempre a mesma. Mas foi só ao fim de umas três semanas.]

Tem-me acontecido gostar imenso das novas séries de comics com animais. Depois do Mooch & pals (a melhor de todas as séries activas), gostei do «Pérolas a Porcos» (Pearls Before Swine) e estou a gostar do «Aqui há Gato» (Get Fuzzy). Ambas têm aquele problema da tradução, em especial pelo facto de jogarem com imensos trocadilhos que não resultam em português. O primeiro livro do «Aqui há Gato» está cheio de notas de tradução mas, às tantas, deve ter rebentado um fusível ao tradutor e resolveu não traduzir, limitando-se a pôr a expressão original entre aspas.

Embora não pareça, eu vinha falar de cães e gatos. Tanto no «Mutts» como no «Get Fuzzy», o gato faz o papel de sabichão independente e o cão faz de pouco esperto mas afectuoso. No «Get Fuzzy» a caricatura extrema-se: o gato é uma personagem muito mais malvada (feio que se farta) e o cão é burro que nem uma porta mas, de vez em quando, cozinha o jantar. Já no «Pérolas a Porcos» o rato faz de gato e o porco faz de cão.

Era só isto. Porque é que eu não consigo ser simples?

quarta-feira, 10 de novembro de 2004

"Há coisas com as quais não se brinca"

Bud: You're nuts about me, aren't you? You're nuts about me....(After making out a while, he begins to touch her below the waist.)
Deanie: No, Bud...
Bud: (He pushes her down to her knees in front of him.) At my feet, slave.
Deanie: Bud, don't.
Bud: Tell me you love me.
Deanie: Bud, you're hurting me.
Bud: Tell me you can't live without me. Say it.
Deanie: I do.
Bud: You do what?
Deanie: I do love you.
Bud: And you can't live without me...And you'd do anything I'd ever ask you, anything.
Deanie: (fearfully) I-I'd do anything for you.
Bud: Deanie, I didn't mean to hurt you. (She lies on the floor, curled up protectively.) Deanie, Deanie! Deanie, I was just kidding. Look, I'm the one who should go down on his knees to you, Deanie. Deanie, I was just kidding. I thought you knew that.
Deanie: I can't kid about these things. Because I am nuts about you, and I would go down on my knees to worship you if you really wanted me to. Bud, I can't get along without you. And I would do anything you'd ask me to. I would! I would! Anything!
[«Splendor in the Grass»]

Era o livro de reclamações, por favor

Há bocado, apeteceu-me ir comer qualquer coisa ao café aqui do lado. A empregada, em vez de me perguntar o que é que eu queria, olhou para mim com um ar muito sério e resolveu abrir a boca para dizer esta brilhante frase: "É que faltam três minutos para fecharmos."

Os diamantes não são os melhores amigos das mulheres

Hoje de manhã, fui inesperadamente contemplada com um elogio. Directo, espontâneo, sem ses ou mas. Galanteador mas educado. Dito com todas as letras e repetido. Um elogio perfeito.

terça-feira, 9 de novembro de 2004

The Fifth

Mais do que ter a possibilidade de condicionar as discussões de acordo com os limites impostos pela convenção de Genebra, faz-me falta poder invocar a quinta emenda.

Misoginia

Quem vai à guerra dá e leva

Lomba, Pedro Lomba

Por motivos alheios à minha vontade, tenho andado completamente desligada do mundo, daquele que não pára de girar, independentemente dos nossos curto-circuitos pessoais. Parece mentira mas os últimos inputs recebidos resumem-se à vitória de Bush, ao estado comataso de Arafat e, claro, à goleada do Benfica e derrota dos lagartos (0-3 ! shame on you). Envergonhada com o estado lastimoso e pouco habitual em que a minha cultura informativa se encontra, resolvi tomar uma atitude, regressar às lides. Agarrei hoje no DN com muita convicção e pouco tempo. Ao dar de caras com o Pedro Lomba que não conheço pessoalmente mas cuja cor da sua costela política é do domínio público, pensei duas vezes: leio ou não leio? Ele é amigo de um amigo de uma grande amiga e eu não quero ter má opinião do rapaz. O tema interessava-me, resolvi arriscar. Ainda bem. Gostei do estilo e do conteúdo.

segunda-feira, 8 de novembro de 2004

Exacto

Uma das coisas boas dos blogs é que os bloggers passam mais tempo em casa e assim se previnem males maiores, como homicídios e revoluções.

Que tal vai essa pintura? (2)

Já assegurou pontos extra pelo rigor com que está a levar a cabo o desafio.

Quando a gente gosta é claro que a gente cuida

A mulher convidou-o a sair de casa e ele saiu; nem lhe passaria pela cabeça não assumir a atitude mais digna. Quando tentava explicar as causas daquela separação começou por me dizer que nunca se tinha apercebido que as mulheres são iguais aos homens. Esta afirmação implicou, de imediato, uma série de explicações adicionais. Os homens – disse - entediam-se com facilidade, precisam de agitação, de muito entretenimento, têm que passear o ego e, de preferência, angariar as almejadas massagens. As mulheres – pensava - apreciam a vida calma de casal e familiar, aparentam passar muito bem sem atenções especiais, parecem ser quase auto-suficientes. Tudo isto formulado como se se tratasse de um elogio formidável ao elemento feminino.

Mas afinal parece que não. Parece que as mulheres são iguais aos homens na sua necessidade de consolo. E uma coisa é essa necessidade ser impossível de satisfazer; outra muito diferente é ignorá-la por completo. É que um carinho às vezes cai bem.

[para a minha directora preferida; a mulher mais bonita, inteligente e afectuosa que conheço. o título e a última frase são da música «Sozinho» de Caetano Veloso]

Retrospectiva

domingo, 7 de novembro de 2004

Economia de escala

E a verdade é que, em regra, por cada pessoa traída há duas que se divertem. Ou, no máximo, por cada duas pessoas traídas é igual o número de pessoas que se divertem. O gosto e o (putativo) desgosto compensam-se. No plano universal, claro.

[desde uma certa aula de História, no 12º ano, que tinha a firme intenção de começar um texto por “e”; está feito]

A blogosfera [é uma cama]

Breath it in and breath it out
and pass it on it's almost out
We're so creative and so much more
We're high above, but on the floor
It's not a habit, it's cool, I feel alive
If you don't have it you're on the other side
The deeper you stick it in your vein
The deeper the thoughts, there's no more pain
I'm in heaven, I'm a god
I'm everywhere, I feel so hot
It's not a habit, it's cool, I feel alive
If you don't have it you're on the other side
I'm not an addict (maybe that's a lie)
[It's over now, I'm cold, alone
I'm just a person on my own
Nothing means a thing to me
Oh, nothing means a thing to me
Free me, leave me
Watch me as I'm going down
Free me, see me
Look at me, I'm falling
And I'm falling.........]
I'm not an addict, I'm not an addict, I'm not an addict.
[K’s Choice, «Not An Addict»; distribuição criativa de itálicos e parêntesis rectos. o título do post é uma expressão muito boa da meg que já vem de longe mas continua actual ou até o estará cada vez mais]

sexta-feira, 5 de novembro de 2004

Este Domingo

Não perca: na «Notícias Magazine», a fotografia de um olho. Se calhar.

Que tal vai essa pintura?

Já está em “curso”? [reparem bem neste trocadilho brilhante que joga com um facto que vocês, se calhar, desconhecem]

Há limites

[uma variação disto, a propósito doutras coisas]

Que eles não sejam felizes ao pé delas é, para as mulheres em geral, perfeitamente tolerável. Que possam experimentar (e expressar) sintomas de uma coisa chamada depressão pós-coital, isso é que já excede todos os limites.

Há-de aparecer-me o primeiro que verbalize um absurdo deste género que eu logo lhe darei razões para ficar mesmo muito deprimido.

quinta-feira, 4 de novembro de 2004

Recordes mundiais

Para o João Pedro:

No próximo sábado, dia 6 de Novembro, a maior salada de frutas do mundo vai ser servida no Festival Nacional de Gastronomia em Santarém, com o objectivo de entrar para o Guiness.

Classificados

Procura-se a música «Slides» de Richard Harris, em qualquer tipo de registo áudio, para compromisso sério.

Flashpost

When you see this, post a pop song in your blog

Eu nem preciso de convite para postar mais uma letra de música, mas claro que não poderia ser uma coisa ao acaso. As primeiras duas frases dessa música «Move On Up», que eu não conheço, fizeram-me lembrar uma outra música, muito menos optimista, de um agrupamento musical da tua preferência. Cumprindo as instruções, aqui fica apenas uma parte da letra para se perceber melhor porque é que uma me lembrou a outra:

Hush now baby don't you cry
Mama's gonna make all of your nightmares come true
Mama's gonna put all of her fears into you
Mama's gonna keep you right here under her wing
She won't let you fly but she might let you sing
Mama will keep baby cozy and warm
Ooh Babe, Ooh Babe,Ooh Babe,
Of course Mama's gonna help build the wall

[Pink Floyd, «Mother»]

Sempre

Passaram mais de dez anos mas o tempo fez o favor de deixar tudo no seu lugar de sempre.

quarta-feira, 3 de novembro de 2004

Não desesperem

Ora Pleistocénico s. m. GEOLOGIA => Plistoceno. Ora Plistoceno [e] s. m. GEOLOGIA época mais antiga do Quaternário, na qual se encontram os primeiros sinais da existência do homem e onde começa, portanto, a pré-história*. Ora Quaternário GEOLOGIA designativo do período geológico actual*. Ou seja, época mais antiga do período geológico actual. Perfeitamente, perfeitamente.

Nós por aqui tínhamos em elaboração um post sobre as eleições americanas que levava em linha de conta os oito anteprojectos referentes ao novo regime do arrendamento urbano, mas qualquer participante no Fórum Opinião Pública da Sic Notícias diria, e bem, que ambos os assuntos perderam, entretanto, actualidade.

[*«Dicionário da Língua Portuguesa», Porto Editora, e homem está mesmo escrito com letra pequena; deve ser alguém que eles conhecem]

terça-feira, 2 de novembro de 2004

A tempo inteiro (2)

If Sean doesn't see me a few days or if I'm really, really busy, and I just sort of get a glimpse of him, or if I'm feeling depressed without him even seeing me, he sort of picks up on it and he starts getting that way. So I can no longer afford to have artistic depressions. If I start wallowing in a depression, he'll start coming down with stuff, so I'm sort of obligated to keep up. And sometimes I can't, because something will make me depressed and sure as hell he'll get a cold or trap his finger in a door or something, and so now I have sort of more reason to stay healthy or bright.

[John Lennon]

À unha

E, já agora, que me estalasse o verniz. Uma vez que fosse.

A festa

Na sexta-feira à noite fui ter com a Sam para irmos a uma festa de um amigo dela.

O convívio situava-se num beco escuro do Rossio, em Lisboa. Ao chegarem àquela morada, estou convencida que a maior parte das pessoas que eu conheço teriam feito marcha atrás, por não acreditarem que aquele edifício a cair de podre pudesse ser o sítio escolhido para uma animação nocturna.

Mas nós arriscámos. O espaço era, como se previa, um pavor. Escuro, muito escuro. Com umas mesinhas espalhadas pela sala e umas velas em cima. Quando chegámos, não havia praticamente ninguém, a não ser uma velhota com um ar suspeito e um homem de meia idade com o mesmo ar. Ouvia-se música, má e demasiado alta. O serão prometia.

O que vale é que nós só precisamos de um sítio para nos sentarmos (esqueci-me de referir que havia cadeiras) para batalhar um assunto qualquer e sentirmo-nos bem.

Depois de uma boa meia hora de conversa, começaram a aparecer pessoas. Com embrulhos. Aquilo era, afinal, uma festa de aniversário! Taparam uma mesa de bilhar com um lençol e improvisaram uma ceia.

A coisa ia a meio quando algumas das pessoas resolveram começar a dançar. Como o amigo da Sam estava entretido a conversar com os comparsas de profissão, resolvemos (perdidas por cem, perdidas por mil) juntarmo-nos aos bailarinos. A música conseguia agora ser audível, apesar de estranha. Só sei que passado um bocado, sorríamos as duas satisfeitas, no meio da pista, a tentar acompanhar um ritmo qualquer.

Falta ainda dizer para o relato ficar completo que o rapaz que fazia de DJ era considerado um sex symbol numa terra do hemisfério sul, que um sujeito baixo e com sentido de humor se estava a meter comigo e que eram mais três que duas da manhã quando resolvemos encerrar a sessão.