Serendipity

The laws of chance, strange as it seems,
Take us exactly where we most likely need to be
[David Byrne]

quinta-feira, 7 de setembro de 2006

Dia de eclipse

Primeiro, o choro de uma menina de uns quatro ou cinco anos. Uma voz de homem saía com dificuldade, como se rangesse os dentes enquanto falava, mas não se dirigia à criança: “nunca... mais... digas... essa palavra”, “sai da minha frente”, “larga-me”.

Por esta altura percebo que isto não faz parte do meu sonho. Está a passar-se no patamar da escada do prédio, a três ou quatro metros da minha cama. A mulher emitia uns gritos entrecortados, parecia teatralizar o efeito de ser afastada do caminho pelo marido. Mais acima, provavelmente apenas com a cabeça de fora da porta de casa, uma voz de rapaz adolescente chamava: “Pai? Pai?”.

O homem, quase no fim das escadas, insiste: “sai da minha frente, larga-me”, até que a porta do prédio se fecha com estrondo. A criança pára de chorar. Instala-se o silêncio. Ouvem-se uns passos de regresso ao andar de cima.

Eu hoje acordei assim©, angustiada com o drama alheio como se fosse o meu.

1 Comments:

Blogger DRV said...

Isso é que foi.. Qu´aflição.

4:11 da tarde  

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