Serendipity

The laws of chance, strange as it seems,
Take us exactly where we most likely need to be
[David Byrne]

quinta-feira, 5 de março de 2009

Os Cinco

Este, que corresponde ao 3º volume da colecção "Os Cinco" da Enid Blyton, foi o primeiro livro que li. Estávamos no Verão de 81, tinha 7 anos, e a minha irmã usou todos os truques de um verdadeiro vendedor de automóveis para me lançar na grande literatura. Os livros ou eram da mãe ou eram do tio, uma vez que cada um tinha a sua versão sobre a questão da propriedade e ambos tinham escrito o nome em cada exemplar. No ano que se seguiu li o resto da colecção e até aos 11, 12 anos reli cada livro umas oito vezes, sem exagero.

As histórias d'Os Cinco tinham, em primeiro lugar, a particularidade de abrir o apetite. Aquelas comezainas cuja ingestão nunca implicava o uso de talher, levavam à imediata preparação de um lanchinho para acompanhamento da leitura. Estas histórias tinham também detalhes que me intrigavam e que atribuía a algum desfasamento histórico ou cultural. Por exemplo: porque é que Os Cinco se levantavam de livre e espontânea vontade às sete da manhã? E, quando inadvertidamente se deixavam dormir até às nove, acordavam chocados com as horas? Muito estranho.

Mas a grande desilusão com Os Cinco motivou até um pedido de esclarecimentos à minha mãe. No livro em causa, Os Cinco reuniam-se em casa da Zé para as férias de Natal. Como a Zé estava com mau aproveitamento na escola, os pais tinham contratado um explicador para lhe dar aulas durante as férias e os primos resolveram também assistir às explicações para a Zé não se sentir tão desgraçada. O explicador era dos maus, coisa que a Zé topou logo mas levou algum tempo a convencer os primos. Nisto, Os Cinco encontraram um mapa que continha duas palavras em latim que eles, coitadinhos que não sabiam latim, não conseguiam decifrar. As palavras eram "via occulta". Fui acompanhando, incrédula, a incapacidade do Júlio, do David, da Ana e da Zé para compreenderem o significado da expressão "via occulta" e, mais, horrorizada por eles se irem meter na boca do lobo, pedindo ao explicador que lhes traduzisse as palavras, o que este faz revelando-lhes o espantoso significado de "caminho secreto". Ah, a minha indignação tinha atingido os limites. Fui queixar-me à minha mãe que Os Cinco (excepto o Tim que não tinha culpa) eram burros. Demorei algum tempo a perceber a causa para tamanha ignorância. Por mais que me dissessem que eles são ingleses e falam inglês, custou-me aceitar que os pequenos heróis não conseguissem dar o saltinho que vai de "via occulta" a "caminho secreto". Na melhor toalha caiu a nódoa.

5 Comments:

Blogger Meg said...

Também considero os livros dos Cinco, a minha primeira leitura. Mas como não tenho a tua prodigiosa memória não sei precisar se foram efectivamente os primeiros que li.
Em todo o caso, recordo-me que bastava ler umas linhas para encarnar a Zé e viver, num sentido quase literal, aquelas aventuras.

12:22 da manhã  
Blogger manuel said...

lembro-me do choque que sentia quando depois de imaginar poderosas escarpas, veredas, enseadas e falésias, aparecia uma ilustração com um grupo de meninos a descer um caminho

3:41 da tarde  
Blogger A Mãe said...

Acho que os primeiros livros dos Cinco da Meg ainda eram os meus...pois é, há mais de 40 anos, em Portugal e não envelheceram muito... infinitamente melhores do que todos os que se lhes seguiram Os Sete, as Gémeas, talvez porque eram muito sugestivos e a nossa imaginação fazia o resto...

6:18 da tarde  
Anonymous R said...

Tenho a mesma colecção, herdada do pai e também foi a minha primeira leitura. Os livros estavam em casa da minha avó e eram-me dados um a um e, depois de lidos, arrumados outra vez na estante dela. Só os pude levar para minha casa já em plena adolescência e agora estão à espera que a M. aprenda a ler.

10:27 da tarde  
Blogger sapiens said...

Li exactamente a mesma edição e comecei com mais ou menos a mesma idade. Reli apenas 3 vezes cada um, com a excepção dos cinco na casa do Mocho, o meu favorito. Eram fantásticos, e foram inigualáveis se comparármos com as versões seguintes já não escritas pela Enid.

5:58 da tarde  

Enviar um comentário

<< Home