Serendipity

The laws of chance, strange as it seems,
Take us exactly where we most likely need to be
[David Byrne]

sábado, 15 de outubro de 2005

Início de escola 2004

No decurso do passado ano lectivo, que foi o primeiro ano de escola do meu filho mais velho, na altura com 3/4 anos, escrevi uma carta à sua educadora que gostava de aqui partilhar. A minha ideia era tê-la divulgado por altura do início do presente ano escolar, não tendo sido possível faço-o agora. Espero que sirva de inspiração a quem está no lado de lá das instituições escolares e de coragem a que se encontra no lado de cá. (os nomes foram alterados)

Querida Alice,

Tenho esta carta na cabeça desde os primeiros dias de escola do Piricus no Bolinho. Tem como objectivo fundamental agradecer, a si por ser quem é e, ao destino por ter posto no meu caminho de mãe e no do Piricus de criança alguém que veio corresponder às expectativas da primeira e às necessidades do segundo.

Quando perto do fim da minha licença de maternidade decidi não regressar ao estilo de vida profissional que vivi até ao nascimento do Piricus foi com o objectivo de ser uma mãe presente. Presente para lhe dar de comer, mudar a fralda, dar banho, vestir, adormecer, brincar, passear, ensinar, rir, ralhar, enfim para satisfazer todas as suas necessidades diárias.

Os meus planos iniciais eram voltar ao trabalho no final da referida licença e entregar o meu bebé aos cuidados de uma terceira pessoa à semelhança do que faz a maioria das mães que conheço. Pesados os prós e contras das soluções “em casa com empregada” ou “num infantário” e analisados os horários de trabalho e disponibilidade do pai e mãe a opção foi pela primeira via. Assim, procurei uma empregada que entrasse de manhã cedo, e só saísse depois do jantar.

Em teoria o plano estava traçado mas, quando na prática senti a existência do Piricus e a vivência do seu dia-a-dia, verifiquei que quando saísse de manhã ele, provavelmente, ainda estaria a dormir; caso conseguisse vir a casa almoçar seria numa hora em que ele, provavelmente, estaria a fazer a sesta; e que, quando chegasse a casa ele, provavelmente, já estaria a dormir. E ainda faltava contabilizar as eventuais noites e fins-de-semana de trabalho.

Cedo conclui que não seria eu a mãe da minha criança mas uma outra pessoa, aquela que eu pretendia contratar para tomar conta dele e da casa. O meu estatuto de mãe seria reduzido a ter um filho, não o iria “criar”.

À medida que o tempo foi passando fui constatando o quanto esta decisão também era muito importante para o Piricus. Desde muito pequenino, sempre precisou de ter por perto a mãe ou o pai para se sentir seguro. Só após bastante tempo de contacto e só com algumas, muito poucas, pessoas sentiu a confiança necessária para “dispensar” os pais. Deixá-lo em casa de tios, amigos ou com uma baby-sitter sempre foi algo impensável. O pânico em que ficaria seria enorme. E nenhum de nós pais aceitava isso.

Tendo este pano de fundo em mente, a entrada do Piricus para a escola sempre foi algo que nós vimos com apreensão. Não tanto por ele, pelas suas capacidades de adaptação a longo prazo, quanto pelo respeito destas limitações e consequente oferecimento das condições ideais para as ultrapassar.

Até porque já tínhamos tido duas experiências (uma na piscina e outra numa escolinha para passar uma manhã por semana) onde confirmámos que os métodos de inserção geralmente praticados eram contrários aqueles que considerávamos adequados e necessários. Deixar o Piricus numa piscina ou numa sala desconhecidas, com vários meninos desconhecidos e professoras desconhecidas (ou relativamente às quais o indispensável laço de confiança ainda não estava estabelecido), e virar costas, não era, — ao contrário do que as responsáveis pelos referidos espaços pretendiam, — possível.

Mas onde encontrar uma escola, professora e demais pessoal que tivessem em conta as necessidades das crianças em geral e de cada uma delas em particular, em suma as especificidades do Piricus? A resposta foi só uma, cega para o pai conhecedor, confirmada para a mãe ignorante: o Bolinho e a Alice no País das Maravilhas.

O resultado está à vista. O Piricus afirma contente: “Eu adoro a minha escola.”.

Porque o cordão umbilical não se corta no momento do nascimento antes se vai desfiando ao longo da infância e porque a confiança é o elemento mais fundamental de qualquer relação humana seja ela de cariz familiar, social, profissional, etc. é uma bênção para qualquer criança encontrar no seu caminho alguém que cultiva a segunda sempre tendo presente o primeiro.

Assim, mais do que corresponder às minhas expectativas, revelou-se a concretização de um desejo. O desejo de haver alguém no nosso caminho que como nós acredita e aceita que o nosso filho saia do nosso colo, pelo seu pé e no seu tempo, e que, fazendo-o, tenha outro colo ao seu dispor.

Pessoalmente, gostaria de acrescentar agradecendo, o enorme prazer que tive em voltar à escola durante aquelas primeiras semanas, apesar da inerente ansiedade quanto à chegada do momento em que passaria a ser uma mãe “normal”.

Prazer esse que resultou de viver o dia-a-dia da escola, a alegria das crianças, a simpatia do pessoal, mas especialmente da enorme inspiração que o tratamento pela Isabel de tantos me trouxe ao meu papel de mãe, especialmente numa fase de espera de um terceiro filho. O que é servir um almoço a três comparado com um almoço a quinze? Gerir um quarto com três ou com vinte e três?

Somos hoje uma família agradecida e, certamente, uma melhor família pelo facto de estarmos ligados a si. Obrigada por tudo, mesmo.

Lisboa, 30 de Maio de 2005.