Serendipity

The laws of chance, strange as it seems,
Take us exactly where we most likely need to be
[David Byrne]

segunda-feira, 30 de agosto de 2004

Harmonia

A “manã” quando era pequenina tinha a "casa dos sempre em pé". Dentro da casa está o pai e a mãe "sempre em pé", o filho "sempre em pé" e a avó "sempre em pé". Na garagem está arrumado o "carro dos sempre em pé". As formas são todas redondas e predomina o cor-de-laranja e o amarelo. Foi o avô regino que lhe deu a casa. Era "regino" porque a avó dela (“nossa”) era a avó regina. Agora é a “manãzinha” que brinca com a “casa dos sempre em pé”. Eu ando à procura de casa, ou melhor, de uma nova casa para os “pingos”. A família dos pingos vive numa casa pequenina que é a “casa dos pingos”. Até agora é composta pelo pai “pingo”, pela mãe “pingo” e pela bebé “pingo”. Os “pingos” também têm o “carro dos pingos”. Eu procuro, procuro e até chego, por vezes, a pensar que encontrei finalmente a nova “casa dos pingos”, mas depois falta sempre qualquer coisa. Não se trata da localização, tipo de construção, estado de conservação, área, luz ou até preço, pois pergunto logo tudo ao telefone. Depois de perguntar tudo e mais alguma coisa lá vou eu, vejo e venho-me embora irritada a achar que esta gente das imobiliárias não percebe nada de casas. Qual "boa oportunidade", qual "muito bonita", qual "cachet"? isso não interessa nada quando não posso perguntar se o imóvel em causa poderia ser a "casa dos pingos". Devia-lhes dizer que A CASA QUE PROCURO TEM DE TER A FORMA DE UMA GOTA DE ÁGUA OU DE UM PINGO DE CHUVA E TEM DE SER AZUL-CLARA/TRANSPARENTE, isto no mínimo, mas ainda assim eles não iriam perceber.